31 março 2004

Um pouco mais de...

Tenho uma colega que era a pessoa mais alegre do mundo. Quando entrava numa sala, contagiava toda a gente com o seu riso, com as suas anedotas, sempre prontas, sempre espontâneas. Era o tipo de pessoa que não pedia desculpa por ter vontade de rir, pondo a mão à frente da boca: ria à gargalhada sem pudor e sem tentar conter a alegria. Há poucos anos o marido morreu e ela tornou-se uma pessoa triste, tão negra quanto as roupas que teima em vestir. Deixou de conhecer as pessoas e estas deixaram de a conhecer, porque ela deixou realmente de ser quem era. Fechou a alegria e os risos num cofre e enterrou-o para além do esquecimento.

Um dia destes estivémos a trabalhar juntas e, a dada altura ela disse-me que o que mais falta às pessoas é a gentileza. Uma boa palavra, um gesto amável, um sorriso, fazem toda a diferença para ela, que perdeu a alegria de viver. Fiquei a pensar nisto desde então e tenho de dizer que concordo com ela. Vivemos uma vida agitada, cheia de regras e horários, aborrecimentos que criamos ou que nos aparecem como obstáculos nos quais tropeçamos, não temos tempo, nunca temos tempo. Somos um exército disciplinado de coelhos brancos sempre a correr para lado algum e para toda a parte. Não nos sobra tempo para respirar um dia de sol, para ler poesia, para observar uma criança, para a ternura. Não temos tempo para a simplicidade.

E, com o correr do tempo, tornamo-nos criaturas amargas, que andam na rua de cara fechada. Quando na cidade alguém nos cumprimenta sem nos conhecer, pensamos de imediato que não passa de um provinciano ou de um idiota. Quem sorri sem motivo é louco. A simpatia incomoda-nos, é uma perda de tempo, ofende-nos, faz-nos pensar que a pessoa simpática tem qualquer intenção obscura de nos fazer cair num “conto do vigário” ou de nos impingir alguma coisa que não queremos (como a simpatia, por exemplo).

“Bom dia”, “Bem haja”, “Como está?”, “Foi um prazer”, “Obrigada”, “Não tem de quê”, “Bom proveito”, “Posso ajudar? São expressões que se vão deixando de usar (ou que se vão usando apenas como regras de suposta boa educação) e que representam sentimentos que vamos deixando de sentir. E, no entanto, uma boa palavra faz toda a diferença num dia cinzento e dá mais luz a um dia de sol, mesmo vinda de um estranho, de alguém que, provavelmente, nunca mais voltaremos a encontrar. São só palavras, dirão vocês, e têm toda a razão. As palavras valem o que valem, não passam de vento, perdem-se no ar depois de serem ditas. Mas, por essa ordem de ideias, as pessoas também não passam de corpos que vivem breves anos e depois desaparecem para sempre. Então será que nada vale a pena?

Vejo a minha vida como um caderno de viagens, onde vou colocando recordações, imagens, recortes, trechos, fragmentos e partículas de cheiros, cores, sabores e sons que me marcam todos os dias. Alguns só têm significado para mim. Outros, consigo partilhá-los com amigos e isso deixa-me feliz, faz-me sentir que é possível estar em sintonia com outras pessoas e, muitas vezes, essa sintonia só precisa de uma faísca para acontecer, de um pequeno momento, de um sorriso breve e o mundo torna-se, de repente, um lugar um pouco mais feliz.

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