19 março 2004

(...)

Pai,

Já sabes que não ligo a estas datas, pelo contrário, nem sequer concordo com elas. Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia da Mulher, é tudo uma parvoíce destinada a ajudar a economia e a dar a ideia de que, pelo menos um dia no ano, as pessoas têm de se dar a atenção a que, no resto do ano, não se sentem obrigadas.

Lembro-me de outro Dia do Pai, há muitos anos, estava eu na 1ª classe e fiz-te um postal. Um dia destes, descobri esse postal na tua gaveta, no meio da panóplia de medicamentos que gostas de coleccionar. Não pensei que ainda o guardasses. No postal dizia que o que mais gostava em ti era de te ouvir assobiar e lembrei-me de que já não o fazes, há tanto tempo!

Nunca foste um pai carinhoso. Mas estiveste sempre lá e ainda estás, mesmo quando resmungas. Nunca me deste um abraço, mas lembro-me que eras tu quem espantava as visitas aborrecidas do hospital e foste tu quem me alimentou quando eu não tinha forças para o fazer sozinha. Nunca foste a uma reunião de pais, nunca quiseste saber das minhas notas, mas sei que sempre disseste a toda a gente que tinhas orgulho em mim.

Custa-me ver-te assim, doente, o corpo deformado pela artrite ganha em anos e anos de pés e mãos no barro molhado, a acariciá-lo, a dar-lhe formas. Sempre tive orgulho na tua profissão de oleiro, sabes, mas também nunca to disse. Talvez pelo mesmo motivo pelo qual nunca consegui chamar-te pai, prefiro tratar-te assim, pelo teu apelido, que também é o meu. Nunca me deixaste à vontade para correr para ti, para te beijar, mas hoje acho que já não precisamos disso. Temos uma espécie de entendimento secreto em que a ternura se demonstra de outra maneira, quando te fricciono o corpo dorido ou passo horas contigo nas urgências do hospital só para ouvir dizer que afinal está tudo bem (não vou dizer que não me sinto aliviada de cada vez que os médicos dizem isso. É como se me dissessem que vais estar por cá ainda uns bons anos e isso deixa-me feliz).

Quando o tio morreu e eu pedi à Ana que se afastasse, que lhe fazia mal estar ali, debruçada sobre o corpo do pai a fazer-lhe festas na cara e nas mãos, para que não arrefecesse, ela olhou para mim, sorriu e disse: “Tu ias-te embora?”. Eu disse que não com a cabeça e fiquei abraçada a ela, sem conseguir imaginar sequer a dor que estava sentir. Sem querer pensar que um dia eu também sentirei essa dor, sem estar preparada para ela. Por isso, prefiro acreditar que esse dia não vai chegar, que o tempo não existe e que eu cheguei agora da escola, de cabelo cortado à Beatriz Costa, óculos e botas ortopédicas (que grande cromo que eu era! Só consegui escapar do aparelho dos dentes!), entrei em casa e ofereci-te um postal, com uns gatafunhos que pretendiam ser o desenho de nós dois de mão dada e umas letras tortas que diziam o quanto gosto de ti.

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