16 outubro 2003

Bragança...claro!

Eis que Portugal está, outra vez, a receber atenção internacional. Depois dos incêndios e dos ministros pedófilos do "Le Point", é a vez das meninas de Bragança terem honras de capa na revista "Time". Na minha opinião, o assunto era mais apropriado para a "National Geographic", mas não duvido que a "Time" tenha feito um belíssimo trabalho (não costumo ler a revista, confesso, sou muito fiel aos meus princípios e quem me tira a "Maria", rouba-me a vida!).

Há prostitutas em Bragança. E qual é a novidade? A maioria é brasileira. E depois? Um destes dias, numa carruagem do metro olhei à minha volta e reparei que era a única portuguesa lá dentro e, se querem saber, senti-me bastante feliz por viver num país tão colorido, só lamento que não tenhamos melhores condições para receber as pessoas que querem ficar a viver connosco.

Parece-me ridículo que um grupo de donas-de-casa e mães-de-família, armadas com moralismos e falsas dignidades ande por aí a fazer protestos e ameaças, desculpando sempre (como não podia deixar de ser) os queridos maridinhos. Minhas caras senhoras, os vossos esposos não foram drogados nem enfeitiçados! Sabem muitíssimo bem o que os espera e aguardam-no ansiosamente. Se, em vez de quererem linchar as meninas brasileiras, as senhoras dessem uma alegre e valente sova nos maridinhos, talvez eles pensassem duas vezes antes de voltar a prevaricar.

Talvez aconteça que, baralhadas com os vários "chapéus" que uma mulher nos dias que correm tem de assumir num só dia de vida (mãe, esposa, filha, trabalhadora, dona-de-casa, etc.), se tenham esquecido do mais importante de todos, aquele que nunca deve ser tirado e sobre o qual devemos colocar todos os outros: o de mulher.

E que tal se, em vez de lutarem para salvar os inocentes homens das garras das terríveis meretrizes brasileiras, começassem a lutar pelos direitos das mulheres? De todas as mulheres, prostitutas inclusivé?

Como mulher, apenas me ocorre pensar que o mundo é e continuará a ser dos homens, enquanto existirem mulheres assim, mais machistas, chauvinistas e conservadoras do que qualquer homem. Não sou a favor da prostituição, mas não gosto que as prostitutas sejam alvo de chacota ou de ataque. Acredito que devem ser defendidas até porque, se existem prostitutas, é porque existem clientes e esses nunca são gozados ou atacados. Porque será?

Tudo isto me entristece, lembra-me um filme que vi há algum tempo, "Maléna", de Giuseppe Tornatore. Acho que, no fundo, as mães de Bragança gostariam de ser mais esbeltas, mais bonitas de ter outros atributos para "enfeitiçar" os homens e talvez até os tenham, mas como os consideram indecentes e pecaminosos não os mostram e acabam por se esquecer que existem.

Gostava de ver Portugal ser capa de revista por outros motivos, mais importantes, mais dignos. Como já tenho dito, não sou dada a nacionalismos exacerbados, mas foi aqui que nasci, é aqui que vivo e é este país que conheço melhor.

Esta história é agridoce: diverte-me e entristece-me. É daquelas histórias em que ninguém sai a ganhar.

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