13 novembro 2003

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigura

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece


Sérgio Godinho, Lisboa que Amanhece)


Gosto tanto desta canção! Lembra-me Lisboa, a minha querida cidade, naquele momento, mesmo antes de amanhecer, em que o ar fica mais frio e mais leve, o mundo parece que pára para respirar fundo e preparar-se para um novo dia e o céu despede-se da noite em silêncio e com um sorriso de fogo, que se rasga num rosto de nuvens.

Lembra-me o Alto de Santa Catarina,
o miradouro de Santa Luzia,
o Cais do Sodré e o cacau da ribeira bebido lentamente, ao longo do rio,
um cacilheiro que se aproxima de terra,
a primeira janela de Alfama que se acende.

Lembra-me todos os lugares que eu amo com um amor maior em duas horas do dia: o anoitecer e o amanhecer. Por qualquer razão, estes sempre foram momentos mágicos para mim.

1 Novas Memórias:

Anonymous mariana Santos escreveu...

é realmente muito bonita...

28/09/2010, 23:11:00  

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