30 julho 2004

Cara Irina

Li - com os olhos lavados em lágrimas - o seu percurso neste país. Aceitando o seu repto, divulgo agora quem sou na realidade, e, acredite, que temos em comum uma vida sofrida, com alguns pontos idênticos, se exceptuarmos os avanços gastronómicos dos seus patrões. Actualmente sou um senhor respeitável de 47 anos, mas nem sempre foi assim.

Nasci num daqueles bairros sociais, ao pé da praia, no tempo das cebolas. Lembro-me perfeitamente, porque como éramos pobres, os meus pais não tinham dinheiro para me comprar chupetas e assim... toca a chupar numa cebola.

A infância, passada numa barraca onde para além de mim, viviam os meus pais, os meus avós, os meus 5 irmãos, a namorada de dois deles - namoravam em dias alternados, dois piriquitos, 3 gatos e um cão perneta, não foi fácil como poderá certamente imaginar. Os dias eram passados no lamaçal a brincar com latas de conservas (vazias infelizmente) e pneus velhos, outrora recauchutados pela empresa onde trabalhara o meu pai. Mais tarde veio-se a saber que afinal a empresa utilizava o negócio de pneus como fachada para a venda ilegal de produtos de emagrecimento e drogas afins, pelo que foi fechada pela polícia e os trabalhadores mortos - por esmagamento - por centenas de senhoras gordas descontentes com o fim das vendas. O meu pai, coitado, ainda tentou fugir, mas como deve imaginar, sair debaixo de duas nádegas - pesando cada uma os seus 50 quilos não é fácil. Acabou por morrer sufocado quando uma outra senhora se sentou em cima dele, não lhe dando qualquer espaço de manobra. Ficámos assim, sobre os cuidados da minha mãe, que trabalhava na limpeza das barracas vizinhas, passando o dia fora de casa e deixando-nos aos cuidados dos meus avós. O meu avô, acamado desde a 1ªGuerra Mundial e a minha avó surda desde a sua infância - resolveu encostar um búzio ao ouvidos e a dentro da concha estava um caranguejo com pinças afiadas. Como não ouviu o barulho do mar num ouvido, resolveu experimentar no outro...

Quando fui para a escola, para a 1ª classe, o meu avô acompanhou-me nos primeiros dias. Era um cortejo enternecedor. Os meus irmãos empurravam a cama dele pela estrada fora e nas descidas subíamos todos para a cama e aproveitávamos a inclinação. Ainda hoje penso que se o autocarro se tivesse desviado, o meu avó ainda estaria vivo.

Na escola aprendi muitas coisas, como por exemplo, que uma cana verde nas mãos dói muito mais que uma ripa de madeira nas nádegas.

Nos recreios brincávamos sempre às lutas, ou então, jogávamos à bola com o Zézinho. Como o Zézinho era pequenino, era ideal para jogar futebol. Tínhamos era de chutar com muita força, porque senão ele não se movia. Ao fim de um certo tempo até parecia uma bola de futebol oficial, com losangos brancos e negros - as nódoas provocadas pelos pontapés.

Quando atingi a adolescência - tropecei nela acidentalmente, devo dizê-lo - resolvi sair de casa. Mudei-me para o barracão anexo à casa, que a minha mãe utilizava como arrecadação.

Farto de estudar - até porque já tinha as nádegas negras e as mãos verdes da cana, comecei a trabalhar. Um dos senhores mais ricos e respeitáveis do bairro, pagava-me 5 escudos - uma fortuna - para levar uns pacotes a alguns cafés de reputação duvidosa, segundo algumas pessoas. Mas era só reputação. Diziam que eles vendiam droga... eu nunca vi, e olhe que ia lá quase todos os dias entregar-lhes pelo menos um pacote. Fui fazendo o meu pézinho de meia e com 18 anos consegui abrir uma conta no banco com quase 1000 escudos, imagine! Pensei então em emigrar, mas desisti logo da ideia. A minha avó, entretanto falecida após um ataque de fúria dos periquitos, revelou-nos antes de sucumbir, que ela e o meu avó tinham sido na realidade um casal conhecidíssmo na década de 30 por efectuar assaltos a bancos e que o produto do roubo estava guardado na Suiça, com um dos empregados da pastelaria.

Após a divisão, ainda ficou cerca de 3000 escudos para cada um dos irmãos. Enchi a minha malinha de cartão com o meu par de calças e a camisa de colarinho revirado e fui então para o Algarve. Comprei uma barraca de pescadores, um modesto T1 junto à praia e passei - durante um ano - a observar a praia, a Fauna e Flora.

A Fauna era uma mulatinha muito engraçada, mas eu, à Flora - talvez por ser antipática comigo, naõ achava graça nenhuma. Contudo, foram tempos muito importantes para a minha evolução e para a minha posição actual - deitado. Com elas aprendi como se deve tratar uma mulher, e elas em troca, mostraram-me como se pode roubar a fortuna a uma homem inexperiente.

Novamente só, teso e completamente liso, resolvi aproveitar os conhecimentos que elas me ensinaram sobre as mulheres. Estavamos em pleno boom económico e começávamos a fazer parte dos roteiros turísticos do mundo. Vinham loiras e morenas de toda a Europa para aproveitar o nosso sol. No trato com elas, aprendi algumas frases de inglês : "Puta same crim?!" e "Ude iu laique same lave?" e daí à internacionalização foi um pequeno passo. Fui-lhes mostrando as maravilhas da gastronomia portuguesa e quando uma ficava satisfeita, logo aparecia outra amiga a querer provar o mesmo prato. Algumas gostavam de repetir a dose e ainda queriam sobre a mesa. Foram tempos muito difíceis, suportados muitas vezes - e não tenho vergonha em admiti-lo - com cházinhos de produtos daquela província de Angola. Houve dias em que nem me levantei, outros que passei de joelhos. Era uma tarefa esgotante fisicamente que muito contribuiu para os meus actuais bicos de papagaio.

Mas nem tudo foi mau, porque cheguei a ir passar férias com algumas das minhas amigas - se bem que não saí do quarto - à Suécia e à Finlândia. Deu para perceber que os tectos são muito trabalhados e as cabeceiras das camas tem um relevo muito particular.

Como pode verificar, a minha vida também não foi muito fácil. Hoje em dia, infelizmente, já não posso desempenhar, as minhas anteriores funções - estou quase reformado por invalidez, e digo quase, porque após ter sofrido uma trombose no ano de 1990 só consigo movimentar a língua em movimentos para a esquerda. Tendências.
Para colmatar esse pequeno percalço e aproveitar o tempo livre, investi tudo o que ganhei anteriormente, no negócio de alterne. Abri um bar que alterna entre café social às segundas, quartas e sextas e restaurante de luxo às terças, quintas e sábados - encerrando ao Domingo para descanso do pessoal.

Fica desde já convidada, querida Irina a aparecer e arranjar as unhas do pessoal (nada como uma boa apresentação). Em troca, ofereço-lhe o mais sonhado manjar dos deuses.

Disponha sempre.
Deste seu admirador,

B.Jo Quente

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