13 outubro 2003

13 de Outubro

Tinha começado a escrever um texto longo sobre o dia de hoje mas (felizmente!) fiz um disparate qualquer com o teclado e o texto. Ainda bem porque era de facto longo e muito deprimente e, pensando bem, apenas tinha interesse para mim.

Hoje é o meu aniversário. Não faz anos que nasci, isso foi em Junho, em plena primavera e sob o signo de Gémeos (duas personalidades, duas vidas, duas verdades, duas perspectivas sobre tudo), mas faz hoje 15 anos que renasci ou, se preferirem, que nasceu em mim uma consciência de vida diferente - "awareness" é o termo mais exacto. Peço desculpas, mas a língua portuguesa não me oferece uma palavra tão concreta ou então sou eu que não a consigo encontrar agora.

Não fui testemunha de nenhum milagre, nada de maravilhoso se revelou perante mim. Faz hoje 15 anos fui operada, foi-me retirado o rim esquerdo. "Malformação congénita" - não é uma expressão eficaz? Nunca soube exactamente o que significava, também nunca me preocupei muito em saber, na verdade. A operação correu bem e a minha vida é normal. O rim direito funciona perfeitamente o que me impediu de engrossar as listas de espera dos transplantes renais. Posso fazer tudo o que queira dentro de determinados limites (os mesmos que qualquer pessoa deve respeitar para não adoecer). As marcas físicas são poucas e quase não se notam. Nada na minha vida mudou por ter tirado um rim.

O que mudou foi a minha perspectiva sobre a vida. Não sobre a minha (se bem que, segundo os médicos, estive quase a morrer, mas eu juro que nunca dei por nada. Também, quem é que aos 16 anos acredita que vai morrer? Eu, pelo menos, achava-me imortal), mas sobre a dos outros. Passei quase dois meses internada numa enfermaria de doentes terminais (não havia vaga noutro lugar...). Conheci a velhice, a doença, a fragilidade e, sobretudo, a solidão. A solidão de pessoas que nasceram, brincaram, trabalharam, amaram e deram à luz filhos que nunca as visitaram. A solidão de corpos que o tempo desgastou e a doença quebrou. A solidão de almas que não percebiam porque é que estavam sozinhas. O que mais lhes custava, acreditem, não era a doença, era a tristeza. Se me perguntarem, direi que morriam de solidão mais do que de qualquer maleita fisica.

Nessa altura percebi que existia outro mundo além daquele em que eu vivia. Existiam pessoas que se sentiam felizes no hospital porque ali tinham comida, uma cama, higiene e o conforto de estar na companhia de outras pessoas. O toque, a voz, a presença dos enfermeiros era fundamental, mais do que as drogas que os entorpeciam.

Lembro-me de todos, como se fosse hoje. Ficaram-me gravados na memória como a lição que não posso e não quero esquecer. Nesta idade da beleza, em que a juventude é constantemente celebrada, esquecemo-nos dos velhos. Os lares de terceira idade estão vazios de visitas e cheios de velhos atirados para lá porque são incómodos, porque são lentos, não ouvem bem, nãos e conseguem bastar ou defender, atrapalham, atrasam-nos a vida. Continuamos a olhar para o lado com uma espécie de asco que não é mais do que medo da velhice, da doença, de perder aquilo a que chamamos com orgulho as nossas "faculdades". Mas será que ao olhar de esguelha fingindo não os ver não estamos já a perder algumas das mais importantes?

Quando saí dos hospital uma enfermeira disse-me que tudo o que tinha visto me punha em vantagem em relação aos meus amigos, era uma experiência de vida que ia fazer de mim uma pessoa diferente. Não respondi, mas lembro-me perfeitamente de que pensei que dispensava tal vantagem...Hoje sei que seria muito mais pobre sem ela.

Obrigada por me lerem.

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