16 novembro 2003

Dia Europeu em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários III

Aos 16 anos pediu ao pai para lhe comprar uma motorizada. Queria ter uma. Não lhe fazia falta, era apenas para gozo pessoal. O pai negou-lha, porque era perigoso, e depois, porque não lhe fazia qualquer falta.

Passados dois anos, aos 18, fez o exame para a atribuição da Licença de Condução para Velocípedes com motor. Pediram-lhe que fizesse a trajectória de um oito e que identificasse 4 ou 5 sinais de trânsito, dos mais conhecidos e passaram-lhe a licença.

Como queria começar a trabalhar de dia e estudar à noite, o pai fez-lhe então a vontade: comprou-lhe uma acelera, uma Yahama CT 50 S (Supersport), novinha, vermelha, linda. A mãe ficou preocupada, o pai alertou para o perigo. Cerca de 8 meses antes, o tio tinha morrido de acidente de mota.

Os meses foram passando, algumas quedas aconteceram, um embate contra um automobilista que teimou em não parar num STOP, nada de mais, nada de grave.

No dia 28 de Abril de 1992, cerca de 6 meses depois da compra, vendo que o seu colega de trabalho não aparecia e que começava a fazer-se tarde, acabou de beber o seu café, e agarrando na acelera fez-se ao caminho. Não chegou a fazer 500 metros. Numa curva descendente, e após espreitar, acelerou a fundo e tentou ultrapassar um autocarro.

Não viu o carro que vinha em sentido contrário. Quando deu por ele, já era tarde demais. Tentou desviar-se para um descampado do seu lado esquerdo, mas que atitude estúpida!... Seria para aí que o carro se iria desviar. Deu-se um embate frontal. Foi cuspido, partiu com as pernas o guiador da acelera, foi contra o pára-brisas da viatura, passou por cima da mesma e estatelou-se no chão, a cerca de 10 metros do local do acidente.

Seguiu-se o pânico. Não, não tinha morrido. Nem sequer chegou a perder os sentidos, embora tenha estado lá perto. Juntaram-se várias pessoas, chegou a ambulância. O sangue escorria-lhe pela cara. Apesar de usar um capacete integral (todo fechado), sofreu diversos cortes. Mas o que preocupava não era isso. A perna direita estava virada ao contrário... literalmente. Não se via sangue, apenas se via a perna virada para fora, completamente torcida.

O pessoal da ambulância tomou os cuidados necessários para o transporte, tala na perna, pensos, colar, e fizeram-se à estrada. Chegado à urgência do hospital de Sta. Maria, percebeu que não iria para casa com a perna engessada como esperava.
-Foi de mota ??
-Sim.
-Vocês não têm juízo. Antes de comprar essas porcarias deviam ir a Alcoitão ver o que se passa lá.

Engoliu em seco, e viu a radiografia da sua perna. O fémur, apenas o osso maior e mais resistente do corpo humano, estava partido em dois sítios, tendo o intervalo entre as fracturas, de alguns centímetros, quase que desaparecido, restando apenas pequenos pedaços. Parecia que o osso que existira ali se tinha desintegrado.
-Vais ter de ser operado.

Chorou. Era a primeira vez que seria operado a alguma coisa. Como a equipa de banco só operava às 3ªs feiras, esperou quase um mês pela cirurgia. As dores, os nervos por vezes insuportáveis, eram combatidos com Valium, Xanax e muitos, muitos analgésicos por via endovenosa. A posição, com a perna sob tracção, levantada, engessada, com um ferro a atravessar o osso, perto do joelho, para manter o comprimento do fémur e evitar um início de calcificação fora do sítio, era díficil de suportar. Mas teve de o ser.

Foi operado a 27 de Maio de 1992. Correu bem. Colocaram-lhe uma cavilha no interior do osso, desde o colo do fémur até ao joelho. Iniciou-se então o período mais difícil. Duas semanas depois da operação, saiu do hospital de Sta. Maria, directamente para o Hospital da CUF onde iria ser seguido e onde faria a recuperação e a fisioterapia. Atendido por um médico de clínica geral, foi-lhe dito que o que lhe fizeram em Sta. Maria não estava bem feito. Provavelmente teriam de tentar outro método. Mas, antes de qualquer medida, devia ir lá outra vez no dia seguinte para ser atendido por um ortopedista. E assim foi... no dia seguinte apresentou-se novamente na CUF, de lágrimas nos olhos e ansioso pelo veredicto. O Dr. Ricciardi, o ortopedista, disse que na sua opinião a equipa de Santa Maria tinha feito um excelente trabalho e estava convicto de que tudo ia correr bem.

Iniciou logo no dia seguinte, a fisioterapia de modo a recuperar os movimentos, a força e a massa muscular. O joelho praticamente não dobrava. A perna mantinha-se quase direita. Logo no primeiro tratamento, fartou-se de morder uma ligadura, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela cara. Ele deitado de barriga para baixo. A fisioterapeuta, sentada em cima dele, a agarrar-lhe na perna e a puxá-la, provocando dores horríveis. Logo na primeira sessão quis desistir. Não estava para sofrer mais. Preferia ficar assim, com a perna presa direita a ter de passar por aquilo outra vez. Mas passou. Passou por aquilo e muito mais.

Em Dezembro, 8 meses depois, voltou a pisar o chão, primeiro apoiado apenas por uma canadiana, depois, em Janeiro pode finalmente largar tudo e voltar a andar com as suas duas pernas.

Em Maio de 1993, foi novamente operado para que lhe fosse retirada a cavilha e tudo se repetiu. Mas, desta vez, tudo foi muito mais rápido e em dois meses a situação ficou resolvida.

Esta história apesar de tudo acabou bem. Nem todas acabam assim. Apesar de ter sofrido - e acreditem que sofri bastante - fiquei vivo para contar a história e praticamente sem sequelas, se descontarmos uma cicatriz na anca.

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