06 novembro 2003

Propinando

Como este é um Convento democrático, meu caro abade João, deixe-me discordar dos seus pontos de vista sobre as propinas. A questão de fundo não é se os estudantes podem ou não pagar o valor estipulado, infelizmente o problema não é assim tão linear. Há muitas outras dúvidas que se colocam e são essas que me fazem ser absolutamente contra o pagamento de propinas, pelo menos nos moldes actuais.

Em primeiro lugar, um estudante de um qualquer curso de letras não custa tão caro ao Estado quanto um estudante de medicina, química, engenharia, etc, como tal não me parece justo que se apliquem os mesmos valores. Em segundo lugar, a maioria das faculdades estatais está - algumas literalmente - a cair aos pedaços desde há vários anos. Como a questão das propinas começou há sensivelmente 12 anos eu pergunto: já há vidros em todas as janelas das salas de aula da faculdade de Direito de Lisboa? E as cadeiras, já chegam para todos os alunos, ou alguns ainda se sentam nos vãos das janelas durante as aulas? Não me parece que se tenha investido muito em termos de infraestruturas, por isso surge a questão: para onde vai o dinheiro das propinas?

Bolsas de estudo são coisas raras e é preciso fazer prova de que se vive no limiar da miséria para conseguir uns míseros tostões (perdão, cêntimos) mensais, pagos muitas vezes com atrasos significativos. Residências universitárias são coisa rara e os estudantes que não têm o "privilégio" de viver nas grandes cidades são indecentemente explorados por pseudo-senhorios que lhes arrendam espeluncas sem condições mínimas de conforto e sem qualquer tipo de contrato...E muito mais haveria para discutir, mas não quero entrar por aí. Creio que o que já disse serve de exemplo para reforçar a minha opinião sobre a matéria em causa.

Tenho a certeza de que se a política social para os estudantes fosse mais eficaz e se houvesse significativas melhorias em termos de instalações universitárias, não haveria tanta contestação.

Esta não é uma luta gratuita. Pode nem sempre contar com toda a inteligência e dignidade necessárias, mas a causa é justa. Há doze anos atrás (para não dize "no meu tempo"), um grupo de estudantes mostrou os respeitáveis traseiros ao então ministro da Educação e eu achei o acto lamentável - não que os traseiros não fossem jeitosos, mas não é assim que se conquista o respeito dos outros para as nossas causas.

Hoje digo o mesmo aos estudantes: vocês têm toda a razão do vosso lado. Por favor não deixem de lutar, mas com lealdade e dignidade.

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