21 julho 2004

(...)

Estou farta da morte. Farta, cansada, saturada, aborrecida de morte com a morte. Há um ano que chegou ao pé de mim e desde essa altura que não me larga, sempre ao meu redor, a rondar, a espreitar, a levar-me pessoas que me são queridas. A querer fazer-me compreender e aceitar o que, para mim, é simplesmente incompreensível e inaceitável

Morreu uma colega minha. Era uma pessoa alegre, sempre satisfeita, daquela espécie cada vez mais rara de pessoas que têm sempre um sorriso e uma palavra amável para toda a gente.

Há pouco tempo soube que estava doente. Há menos tempo ainda soube que tinha cancro no estômago. Há dias soube que nada havia a fazer. Hoje soube que morreu.

É assim a vida, dizem-me. Assim como? Assim curta? Assim estúpida? Assim doce? Assim veloz? Assim triste? Assim previsível? Assim o quê? Alguém me consegue explicar? Às vezes sinto-me profundamente estúpida porque não consigo entender estas coisas. Quero dizer, entendo o processo físico, o processo de envelhecimento e degradação que tem início no preciso momento em que somos concebidos, o que não consigo entender e – desconfio – nunca conseguirei, é a inutilidade de tudo isto, desta vida toda.

Quando a minha avó morreu, há dezassete anos, não consegui perceber. Achei que era da idade e que, com o tempo, tudo faria sentido. Seis anos depois perdi o meu avô e continuei sem perceber. Há um ano foi a vez do meu tio. Também não percebi. Faz hoje precisamente três meses, morreu o meu pai e eu percebi que nunca irei perceber. Porque, para mim, perceber porque é que as pessoas têm de morrer significa aceitar a sua partida e é isso que eu não consigo aceitar.

A minha colega mantinha três empregos para sustentar dois filhos. Eu nunca soube que ela começava a trabalhar às seis da manhã e só chegava a casa pela noite dentro. Nunca soube porque ela nunca mo disse, nunca se queixou, nunca reclamou. Fazia o que era preciso. Fazia o que podia para viver com mais conforto financeiro, para dar mais conforto aos filhos. Resignava-se, encolhia os ombros e fazia uma cara alegre e com ela enfrentava os dias. É assim que ela continuará a ser para mim.

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