27 fevereiro 2007

Estrias e histerias

Kate Winslet, uma excelente actriz e uma mulher muito bonita, diz que não tem quaisquer problemas em conviver com as suas estrias, cicatrizes e outras imperfeições. Como tal, continua a despir a roupa e os preconceitos no cinema e assume as formas de uma mulher real, mãe de dois filhos, sem recorrer aos milagres da cirurgia estética…por enquanto…

Nos dias que correm, esta é uma atitude no mínimo invulgar, sobretudo para quem vive (de e) em Hollywood. Olho à minha volta e vejo as minhas colegas e amigas a recauchutarem-se dos pés à cabeça. Desde as dietas até às operações plásticas, passando pelas massagens, drenagens e outras de cujo nome não me lembro, elas fazem tudo para ser mais bonitas. Uma delas dá-se ao trabalho de, todas as manhãs e todas as noites, durante 40 minutos, massajar as pernas com não sei quantos cremes diferentes, um para a parte interior da coxa, outro para o lado de fora, um para hidratar, outro para exfoliar, etc, etc, etc…

No meio deste universo de mulheres à beira de um ataque de histerismo, a única coisa que sinto é uma aflição cada vez maior por causa desta ditadura da beleza que nos é imposta. Aborrece-me a ideia de que temos de ser perfeitas para cativar as pessoas, sobretudo para prender os homens. Irrita-me a sugestão de que, se uma mulher não se cuidar devidamente, então correrá sérios riscos de perder o “seu” homem.

Lembro-me até hoje de um texto que li na “Crónica Feminina” (a minha mãe lia a “Crónica”, a minha avó lia a “Mulheres”, e eu fui criada no meio deste fogo cruzado de mulheres-galinha contra feministas) em que um pobre marido se lamentava que a mulher se tinha desleixado a tal ponto que, quando todas as manhãs se vinha despedir dele à porta de casa, com o seu roupão de pelo branco, apenas lhe fazia lembrar um urso polar…Claro que o senhor se esqueceu de dizer em que animal ele mesmo se tinha tornado, mas isso não interessa nada, porque um homem pode envelhecer, mas uma mulher não.

Uma mulher tem de ser sempre bela, apetecível, sensual. Um homem já é diferente: pode ir-se abaixo com os anos, pode deixar a barba por fazer, pode ter as mãos ásperas que ninguém liga – pelo contrário, até é considerado sinal de virilidade! Resumindo: cara de homem peluda é sinal de “machesa”; pernas peludas de mulher são sinal de desleixo.

Não me entendam mal. Acho que o aspecto é importante, que as pessoas devem cuidar-se um bocadinho, por forma a sentirem-se bem, confiantes e atraentes, mas daí à histeria que o corpo tem causado nos últimos anos, vai uma enorme diferença. Nesta questão, como em tudo na vida, defendo o equilíbrio, o caminho do meio, de que fala o budismo. Da mesma maneira que eu consegui (quero dizer, acho que consegui) estabelecer um compromisso entre a “Crónica Feminina” e a “Mulheres”, creio que também não deverá ser assim tão difícil encontrar o equilíbrio entre o bom aspecto e a neurose.

Por mim, continuo a defender as minhas estrias e a ser amiga da celulite (todos os dias a alimento com coisas de que ela gosta…). São minhas, fazem parte de mim, mas não são eu. São uma ínfima parte dos meus defeitos, os menos graves e preocupantes.

Mas nem todos nascemos bonitos por fora, é verdade. Uns precisam trabalhar mais do que outros para conquistar a beleza, mas daí a dedicar toda a vida ao “look”, vai uma grande distância. O melhor é relaxar e aproveitar a viagem até porque, digam o que disserem os Pitanguis que se encontram ao virar de cada esquina, é nas imperfeições que reside a verdadeira beleza, única e frágil, como a vida. Afinal, como dizia um ex-namorado meu, dotado de uma generosa protuberância abdominal, até as estátuas gregas têm barriga!

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