31 agosto 2004

(...)

Ainda sobre o inesgotável tema do aborto (e o ainda mais inesgotável tema da hipocrisia) deixem-me contar esta história que se passou comigo, está a fazer agora um ano.

Porque a minha ginecologista estava com muitas pacientes, decidi ir a outra para uma consulta de rotina. Sendo a primeira vez que me consultava com ela, foi necessário fazer a minha história clínica e a primeira pergunta que a médica me fez foi quantos filhos eu queria ter. Respondi que nunca tinha pensado muito nisso, que teria os que tivesse, se tivesse e quando quisesse. Face a esta resposta, a senhora olhou ara mim como quem olha para um bicho raro e resmungou qualquer coisa sobre parecer impossível alguém na minha idade não ter ainda decidido os filhos que quer. Não gostei, mas relevei e seguimos em frente. Mas a senhora não queria mudar de assunto e pediu-me o meu grupo sanguíneo porque em caso de parto seria importante.

Devo dizer que, naquele momento e depois, durante toda a consulta, me senti uma aberração. Uma mulher de 31 anos que nunca teve filhos e não sabe ainda se os quer e quantos quer parecia inconcebível para aquela médica tão orgulhosa de ter escrito sob o nome “Ginecologista e Obstetra”. As minhas fibroses mamária eram típicas de quem nunca tinha sido mãe e desapareceriam quando eu amamentasse. Os meus óvulos tinham as dimensões e características normais “para uma pessoa da minha idade” que nunca tinha engravidado, etc., etc.

Por razões várias, decidi não voltar a este consultório, mas não esqueci a atitude de desdém da senhora para comigo. Há poucos dias, em conversa com uma colega, fiquei a saber que esta mesma senhora havia sido proibida pela Ordem dos Médicos de exercer obstetrícia porque fazia abortos naquele mesmo consultório onde me tinha feito sentir inferior a todas as outras mulheres do mundo por não ser mãe…

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