31 agosto 2004

Efeitos secundários

Li algures que, depois de um acidente grave ou de uma morte, as pessoas perdem o rumo e que, durante algum tempo, tudo anda à deriva, a flutuar à nossa volta, espalhado pelos muitos cantos das nossas vidas, como numa dança lenta e descoordenada. Nós próprios flutuamos numa espécie de dimensão paralela de onde se vê tudo o que se passa do outro lado, mas onde nada se alcança. Um pouco como um astronauta fechado na sua cápsula, rodeado por tudo o que precisa para sobreviver e que vai recebendo, de tempos a tempos, o som distorcido das vozes que vêm da Terra e que lhe falam de conforto, de chão firme, de gravidade e da falsa ideia de estabilidade que a rotação da Terra sobre o seu próprio eixo nos oferece.

Depois aterra-se, passado não sei quanto tempo. Apanha-se os cacos e fragmentos que connosco rodopiaram e com eles procuramos reconstruir a nossa rotina. Nessa altura, descobrimos que nada é como era, que nós mesmos não somos iguais e aí começa o sofrimento. Sentimos saudades das pessoas que éramos e, em consequência, dos que partiram porque com eles partiu uma parte de nós. Quando choramos a morte de alguém, é por nós também que choramos, porque já não nos reconhecemos e não gostamos da pessoa que somos agora.

Olhamos para a vida e vê-mo-la desarrumada. Nada faz sentido, nada cabe nos lugares onde dantes tão bem se encaixava. Ou será que é ao contrário? Será que afinal nada fazia sentido e agora é que começamos a ver as coisas na sua realidade nua e crua e é ela precisamente que nos morde e nos dói e nos faz sentir tristes e revoltados?

São os efeitos secundários, as ondas de choque de um acontecimento tão intenso que nos faz saltar de carril e, muitas vezes de direcção. Os outros não nos reconhecem, estranham-nos as atitudes, as reacções, os exageros. As pessoas mais próximas sentem-se postas de lado, longe e perto ao mesmo tempo, como se houvesse uma barreira de silêncio e dor tão forte que quase ganha expressão física. E os dias passam, e os meses arrastam-se. E o desespero instala-se.

Vale a pena continuar a viver? Ouvi esta frase a uma amiga há pouco tempo. Disse-me que era o seu primeiro pensamento todas as manhãs, enquanto o pai esteve doente. Dentro de mim, o meu terrível optimismo diz-me que sim, que ainda há muitas coisas à minha espera. Por outro lado, quando olho à minha volta e vejo a família desunida, os conflitos cada dia mais presentes, as mágoas e os remorsos que se revelam através da agressividade, os problemas antigos que explodem à superfície com toda a violência, tenho vontade de fechar-me na minha cápsula e voltar a flutuar. Sem peso, sem chão, sem sentir, sem sofrer, sem destino, sem objectivos, sem ter que voltar a viver.

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